ENTREVISTA COM A TATIANA SABINO

A entrevista foi dividida em duas partes: uma antes da 1ª Copa tritões e outra realizada depois.

1ª PARTE

*É uma enorme honra em você ter aceitado nosso convite. Conte a sua historia no Futebol Americano.

A honra é toda minha. Obrigada pelo espaço. Bom, em 2003 eu vi um menino passando com uma bola de FA na praça. Perguntei a ele se havia algum time, ele disse que só masculino, mas que eu podia ir lá falar com o treinador. O coach era o Cristiano, o time era Saquarema Tsunamis. Ele permitiu que eu treinasse, e devido ao meu desempenho, me permitiu até jogar com os meninos... Eu joguei de Center em 3 amistosos e no Primeiro Saquarema Bowl Masculino. Quando começou o Carioca Bowl, impossibilitada de jogar com eles, montei o Big Riders e estou nele até hoje.

*Como foi para você receber a convocação para seleção brasileira?

Foi muito compensador. Eu jogo o “football“ há 7 anos e essa convocação me fez sentir completa como jogadora. É muito bom ver atletas que eu conheço a tempos, que sei a dedicação, serem convocadas também. Foi único, tudo, não só a minha convocação, mas também ter participado do projeto que foi tirar a seleção brasileira do papel e passar à prática.

*Qual a diferença do treino da Big Riders para da seleção?

Começando pelo clima. O clima do treino do Big Riders é MUITO descontraído é maravilhoso. Já na seleção é mais silencioso... Muitas meninas não permitem se dar bem. Taticamente.... Bom, os coaches da seleção brasileira são extremamente conhecedores de futebol americano, além de terem o dom para instruir as pessoas, corrigir detalhes... Eu procuro aprender ao máximo e passar toda essa experiência ao Big Riders.

*Foi difícil a sua adaptação na seleção?

Não... Eu fiz o primeiro try out para QB. A partir do segundo já fiz para OL e TE. Fui convocada para TE. Infelizmente esse ano não pude comparecer muito aos treinos, devido a uma lesão no pé. O que eu achei que teria dificuldades para me adaptar era em relação a conviver com pessoas de todos os times, que não conhecia e até que não simpatizava, mas tudo está correndo muito bem. Acho que todo mundo entendeu bem que na seleção temos que pensar em conjunto e esquecer as diferenças. Lá não somos A ou B, somos BRASIL.

*Teve dificuldades nos treinos na OL e de TE ?

Não. Eu era Center quando jogava no Tsunamis, posição essa que eu sou apaixonada. No inicio do Big Riders eu era Fullback. Eu não tenho problemas para atuar em nenhuma posição... No ataque!! (risos) Defesa já não me garanto muito.

*Saquarema também é conhecida como capital do surf nacional, podemos agora considerar capital do futebol americano?

Não diria capital, mas um grande pólo do esporte. Em Saquarema nasceu o primeiro time de Futebol Americano Feminino do Brasil e o primeiro time Jr do Rio (não tenho como afirmar se do Brasil) e ambos foram campeões Carioca em 2005. Em Saquarema organizamos o torneio mais bem visto do Rio de Janeiro (Saquarema Bowl Feminino e Masculino). Acho que nossa cidade é um bom referencial.

*Dias 01 e 02 de Maio tem a Copa Tritões de Futebol Americano Feminino. Qual é sua expectativa?

Sabemos que será duro. Sabemos da qualidade de algumas das jogadoras, por já termos jogado contra elas anteriormente. Sabemos que o Tritões por sua essência é um time organizado e muito bom taticamente. Portanto não esperamos jogo fácil. Mas é óbvio que vamos entrar em campo com foco em um único resultado: a vitória.

*Há alguns dias atrás nos encontramos em Copacabana e o Big Riders foi campeão da 4ª Taça Carioca de Flackle Feminino e observei um certo desnível nas outras equipes comparado a vocês. Qual seria a justificativa disso?

O principal motivo acho que é falta de experiência das outras equipes. Foi não só o primeiro campeonato, mas como o primeiro jogo do Islanders e do Soldiers. Acho natural que a nossa experiência tenha prevalecido. Em relação ao Botafogo, que é um time tão experiente quanto o nosso, não sei bem o que houve. Eu esperava mais delas. Mas acho que devido à quantidade de novatas, a equipe não encaixou bem.

*E o Vênus Bowl, acabou?

Ano passado no Rio de Janeiro só tínhamos de equipes ativas o Big Riders e o Flames. Portanto acho que ambas as equipes focaram em Torneios fora. Da parte do Big Riders, para testarmos a equipe em relação a equipes de outros estados e também para passarmos a atuar em mais uma modalidade: grama. Mas em 2010, espero que tenhamos um Vênus. Fez falta ano passado.

*O Tritões foi o primeiro time fora do RJ a jogar ai no Carioca Bowl, acha que a história pode se repetir com o Tritões feminino?

Seria maravilhoso. Quanto mais equipes melhor. E não acho que seja uma hipótese surreal. Eu tenho certeza que o Tritões tem organização o suficiente para isso.


2ª PARTE

*É um prazer continuar esta entrevista após o campeonato. Sobre ele, o que você achou?

Eu achei muito bem organizado. Campo com gramado perfeito. A arbitragem, apesar de no primeiro dia ter sido péssima, no segundo foi excelente.

*O que você considera determinante para uma boa arbitragem? É raro o dia que vemos elogios pra arbitragem. Quais foram as diferenças em ambos os dias? Acredita que o Big Riders saiu prejudicado?

Nao acredito que o Big Riders em si tenha saído prejudicado. Não achei a arbitragem tendenciosa, mas sim de má qualidade. E isso prejudica ambas as equipes. Na minha opinião, é mais importante para um arbitro ter uma boa postura, ser firme, do que realmente ter pleno conhecimento de regras. É claro que conhecer e entender as regras é muito importante, mas conheço pessoas que devoram livro de regras e na hora de apitar um jogo não tem postura e compromete o bom andamento da partida. Como arbitro, você tem que ser respeitado, as equipes tem que ter a confiança de que você está ali para ser imparcial, ser um garantidor de um bom jogo. Agir com firmeza, ter a humildade de se corrigir, caso erre. E por isso fiquei muito satisfeita com a arbitragem de domingo. O José foi perfeito.

*O Big Riders vinha numa seqüência de vitórias bastante interessante... Há muito tempo não perdia... Estavam imbatíveis, e em duas semanas antes do torneio venceram vários jogos na praia de Copacabana (como mencionado na pergunta lá em cima). Vocês vieram pra cá muito confiantes, acha que houve da parte de vocês, um desprezo perante a equipe de Vila Velha e entraram com o famoso "salto alto”?

Não acho que houve "salto alto". Nunca fomos disso. Eu sempre falo pras meninas "Para vencer, a gente precisa esperar tudo, o possível e o impossível, precisa respeitar o adversário, porque um único lance, de sorte ou não, pode definir uma vitória ou uma derrota. Vencer não é tão difícil, se manter no topo é muito mais". Alias, criou-se um mito de que não perdíamos a muito tempo, de que éramos imbatíveis. Perdemos em novembro do ano passado, para o Botafogo Flames, no Viradão Carioca. Na vitória nós colhemos os louros de um árduo trabalho de preparação, treinamentos e tudo mais. Na derrota, nós enxergamos muito mais os nossos erros, nossas deficiências e podemos trabalhar muito mais em cima disso. O campeonato em Copacabana foi em outra modalidade, Flackle 7x7 na areia, uma modalidade muito mais dominada pelo time, que é a modalidade em que iniciamos e que praticamos ha tempos.

*Eu conferir de perto que vocês sempre estão viajando cedendo jogadoras para outros times, e com isso conseguiram um incentivo para vim pro campeonato (a prefeitura cedeu o ônibus). São poucas as equipes hoje no cenário brasileiro que obtém isso, menor ainda são os times femininos que conseguem isso. O que está faltando hoje pro FA feminino dar essa subida assim como os times masculinos estão hoje (com campeonatos em vários lugares, e muitos times recebendo patrocínios)?

Pelo menos aqui no Rio, as equipes femininas vêm conseguindo bons apoios, que futuramente poderão aumentar. Aqui em Saquarema o Deputado Estadual Paulo Melo, desde o nosso início, colabora significativamente com a equipe: jogos de uniforme, viagens, Saquarema Bowl Feminino. Ele sempre nos ajuda, justamente por falta de patrocínio do setor privado e público. No Rio, as meninas do Flames conseguiram o Botafogo. Agora o Coyotes é Vasco. Acho que está tudo se encaminhando pro futuro. O que dificulta esse apoio é o fato de que o Futebol Americano no Brasil não ser um esporte tipicamente popular. Feminino então, menos ainda. Mas acho que isso está mudando.

*Nos bastidores aqui no estado, comenta-se muito que o Tritões Feminino iniciou-se pré-montado, com todo alicerce de outra equipe. Você que teve oportunidade de jogar 2 vezes com a antiga equipe de algumas, e agora com elas no Tritões, acredita que é um trabalho que se deu continuidade, ou foi tudo refeito pela comissão do VVT ?

Eu acredito que a comissão do Tritões deu uma melhorada significativa nas jogadoras, tecnicamente. E o mais importante, transformou jogadoras em equipe! O conjunto do Tritões funcionou muito bem. Apesar dos talentos individuais, percebe-se que o bom desempenho da equipe deve-se ao conjunto. E isso, na minha opinião, é muito importante, porque por mais que uma jogadora seja boa, é o conjunto que faz a diferença.

*A seleção brasileira deve ser novamente recomposta para os treinamentos, diferente da seleção de soccer onde jogadores novos não tiveram oportunidade. Acredita que no FOOTBALL, isso pode ser fazer diferente, já que no VVT uma grande parte são de jogadoras novatas?

Eu acho que assim como no soccer, no football experiência faz muita diferença. Mas talentos não podem ser desperdiçados. Acho sim válido que as jogadoras novas tenham uma oportunidade de mostrar seu talento para os coaches da seleção e quem sabe conseguir uma convocação. Aliás, muitas das jogadoras que foram convocadas, eram novatas na época da convocação (a 9 horas, por exemplo).

*Muito obrigado por dar continuidade a esta entrevista, um prazer muito grande em ter você aqui.

Obrigada vocês pelo espaço e pelo convite para participar da I Copa Tritões!

Tatiana Sabido – QB Big Riders