ENTREVISTA COM PAULO MANCHA

Janeiro foi o mês das férias, porém em fevereiro já voltamos com força total! Logo de cara, entrevista com Paulo Mancha! Confiram!

*Obrigado Mancha por nos conceder o privilégio de entrevistarmos você. Como de costume com os outros entrevistados, conte-nos mais um pouco sobre quem é esse tal Paulo Mancha?

Bom, meu nome verdadeiro é Paulo D'Amaro. O apelido não tem nada a ver com a Mancha Verde – nem palmeirense eu sou! “Mancha” vem desde a infância, pois tenho uma pinta no peito. Então, quando jogava bola, diziam: “passa pro menino da mancha”. Aí pegou... Eu sou paulistano, do bairro do Ipiranga, jornalista formado pela ECA (USP), e trabalhei muitos anos nas editoras Abril e Globo, em revistas como Quatro Rodas e Época. Além de ter passado pelo Caderno de Esportes da Folha de S. Paulo, por um breve período. Atualmente, sou editor-chefe da revista de turismo VIAJAR PELO MUNDO. Também tenho minha própria empresa, ainda bem no começo, a Extra Point Cultura Esportiva (www.extrapoint.com.br). Acompanho a NFL desde 1996. Na TV, estou desde 2006 como comentarista do canal BandSports. Peguei tanto amor pela história do futebol americano que em 2009 me tornei membro da Professional Football Researchers Association (PFRA), uma associação de pesquisadores do esporte, com sede nos EUA. Ah, torço para o New York Jets!

*Vamos lá, estamos começando o ano de 2011 agora. 2010 com certeza foi o ano do futebol americano no Brasil com a criação de várias ligas e grandes campeonatos a nível nacional. Como você acha que nós, praticantes do esporte, podemos atrair mais curiosos e adeptos ao jogo?

O essencial é ter (e exigir) uma postura voltada ao público, e não só aos próprios jogadores. Cansei de ver nos últimos anos torneios e partidas em que jogadores, técnicos, juízes e organizadores estavam preocupados apenas consigo mesmos. Não estavam nem aí para as pessoas na arquibancada ou para os eventuais repórteres de jornais e TVs (que nada mais são senão os olhos de milhões de pessoas em suas casas). Posso citar como exemplo um tryout de um time em que apareceu um repórter da Globo e ninguém teve a iniciativa de auxiliá-lo, dar suporte, informação, press release etc.. O que aconteceu? O repórter, sem entender nada, acabou por abordar aquilo que mais lhe chamou a atenção: a desorganização e a precariedade! Ou seja, o que poderia ter sido uma reportagem bacana para o esporte virou uma galhofa. Isso é muito comum. Com o público então, nem se fala. O sujeito aparece para ver um jogo, não entende nada e vai embora para nunca mais voltar. Já vi acontecer isso com possíveis patrocinadores, que desistiram por terem ficado “boiando” durante o jogo... Por isso, é preciso pensar em quem está do lado de fora da sideline. Não basta pintar o campo e sair jogando. Tem que haver narração didática (explicando a mecânica do jogo, antes mesmo de a partida começar), folhetos, juiz com microfone falando em português (por exemplo: “saída falsa” e não “false start”), placar (por incrível que pareça, ele é raro!) etc...

*Mal começou o ano e já houve vários Bowls universitários. Citando os colleges americanos, você acredita que em quanto tempo em média o futebol americano brasileiro possa conter times que jogue de igual pra igual com os “semi-profissionais” de lá?

Não quero parecer pessimista nem menosprezar nossos jogadores, que são muito aplicados e apaixonados. Mas alcançar o nível do college football americano é algo que levaria muitas décadas. Nos EUA, algumas crianças aprendem a falar “touchdown” antes de “papai” e “mamãe”... Sem contar a estrutura que as escolas dão à prática do esporte desde o ensino fundamental. Um shoulder pad, que aqui no Brasil é um “sonho”, lá é uma banalidade, que qualquer molequinho tem. Talento e vontade, nós temos. Mas faltam décadas de experiência, estrutura e cultura do esporte para atingirmos um nível próximo ao dos universitários americanos. Sei que essas palavras podem desanimar alguns. Mas se, em 1900, os operários e estudantes que chutavam uma bola redonda nos terrenos baldios de nossas cidades tivessem se desanimado, não seríamos hoje pentacampeões...

*Hoje no país já temos algumas equipes que dão ajuda de custo à alguns atletas para jogarem. No mês de dezembro em Vila Velha foi aprovado um projeto de lei que viabilizou o bolsa atleta no nosso município, onde estamos torcendo para que uma parte da renda venha para a nossa equipe. Assim também, temos grandes equipes de time de soccer que estão com parceria com os times de football, como o caso do Fluminense, Vasco, Corinthians entre outros. Esses fatos são muito recentes e estão acontecendo numa rapidez incrível e de uma forma viral. Se continuarmos caminhando dessa maneira, acredita que o esporte possa virar profissional no Brasil em quantos anos (se pode virar)?

Novamente, não quero parecer pessimista, pois não sou! Mas sou realista. No Brasil, mesmo esportes com uma tremenda tradição, como vôlei, futsal e basquete, têm ainda uma quantidade significativa de atletas “semiprofissionais”. Ou seja, aqueles que não podem se manter apenas com o rendimento recebido no clube e acabam obrigados a desempenhar outras atividades em paralelo. Por isso, falar em profissionalismo no futebol americano aqui no Brasil é sinônimo de esperar 20, 30 ou 40 anos. Repito: isso não deve desanimar ninguém. Como costuma dizer o Sílvio Santos Júnior, estamos numa caminhada. Os jogadores de hoje serão considerados os heróis do nascimento do esporte em nossas terras daqui a 50 anos.

*Pelo que pôde perceber dos jogos até hoje no Brasil, seja por vídeos ou comentários, qual a maior diferença do futebol americano praticado em terras brasileiras e do REAL FOOTBALL dos EUA?

O brasileiro tem muito jeito pra coisa. Nossa ginga e capacidade de improviso são inigualáveis, produto da cultura em que estamos imersos desde o berço. E essas características nos favorecem no futebol americano. Sendo mais específico, o jogo de corridas se beneficia muito disso, dos cortes, dos dribles, da esperteza. Mas falta ainda muito treino de fundamentos, sobretudo no jogo aéreo. Ainda somos fracos nesse sentido, com indisciplina nas rotas, drops, overthrows e facilidade para os defensive backs. Aí entra a questão da sistemática, do treino intensivo, da busca da excelência pela repetição – campo em que os americanos são mestres.

*No artigo do Everaldo Marques publicado na revista GUIA DO FUTEBOL AMERICANO, ele citou o fato de que pessoas que não conhecem o esporte acham que é como vale-tudo, mas quando se conhece, o jogo aproxima-se mais do xadrez do que da luta. Nós praticantes e amantes sabemos disso. Porém, muitos brasileiros têm uma opinião formada de que é uma “luta” muitas vezes por não terem acesso às partidas, já que os jogos ao vivo, são transmitidos somente nas emissoras pagas. Acha que uma possível transmissão de partidas por alguma emissora da TV aberta poderia estimular a combater este estereótipo já criado, ou os brasileiros não são muito “abertos para novas experiências”, nesse caso, para novos esportes, ainda mais sendo um esporte americano?

Com certeza! Eu viajo muito pelo mundo e sei que o brasileiro é muito mais aberto a novidades – sobretudo as vindas dos Estados Unidos – do que os europeus, por exemplo. No caso do futebol americano, a aversão é apenas é fruto do desconhecimento. Na hora em que o brasileiro vê de fato um jogo e começa a entender, ele joga seu preconceito no lixo e muda de opinião sem qualquer problema. Por isso, o futebol americano na TV aberta brasileira seria um tremendo sucesso, não tenho dúvidas. Coisa que já não ocorre tanto na Europa. Lá, eles podem até gostar, mas não admitem nem assumem, porque não querem privilegiar algo “Made in USA”.

*Continuando com exemplos citados na revista, no seu artigo você fala da brincadeira feita por George Will: “O futebol americano combina os dois piores elementos da sociedade dos EUA: violência e mania de fazer reuniões”. Você acha que os Huddles “demorados” e os diversos comerciais durante o jogo, facilitam o não gostar do esporte por parte dos brasileiros, pelas inúmeras interrupções?

Só para quem desconhece totalmente o esporte. No momento em que a pessoa começa a entender um pouquinho da mecânica do jogo, as paradas passam a fazer sentido e deixam de incomodar.

*Assunto NFL: o que achou do Green Bay ter levado o Super Bowl XLV? Merecido, ou outra equipe merecia mais?

Merecido. Green Bay foi uma equipe mais balanceada que Pittsburgh, sobretudo na fase final do campeonato, quando o jogo corrido passou a funcionar, graças a James Starks. Ou seja, defesa e ataques jogando ambos em alto nível na pós-temporada. Os Steelers tinham uma defesa excelente, mas um ataque que nunca empolgou. Big Ben teve números apenas medianos nos playoffs, por mais que tenha conduzido drives importantes em alguns finais de partida, como contra o Jets e mesmo contra o Packers no Super Bowl.

*Tem algum recado que queria deixar para os jogadores ou amantes do esporte no Brasil?

Cada um tem seus motivos para levantar num fim de semana e vestir seus pads e capacete. Uns por puro lazer descompromissado, outros pela vontade de construir um esporte no país. Seja qual for sua razão, saiba que há uma coletividade e seu compromisso é com ela. Tudo o que você fizer de bom ou de ruim afetará a todos. Um tackle maldoso que machuque alguém pode destruir a reputação do esporte no país, assim como uma jogada espetacular pode colocá-lo na mídia. De um modo ou de outro, o importante é saber que “estamos sendo julgados”. E nossas ações hoje, no dia a dia dos campeonatos e torneios, é que definirão se os brasileiros condenarão ou exaltarão esse esporte no futuro.

*Muito obrigado pela entrevista Mancha, e boa sorte com os ouvidos perto dos gritos e comentários ilários do querido Ivan Zimmermann!

Falou!!!

Paulo Mancha – Comentarista BandSports